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    Astronomia: observação e estudo dos astros

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    AJC
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    Astronomia: observação e estudo dos astros

    Mensagem  AJC em Qui Dez 29, 2016 6:08 pm

    Resolvi escrever esse pequeno texto depois que um astro colega disse ter visto um video, com dezenas de milhares de acesso no Youtube, no qual afirmava-se que pequenas lunetas Tasco não se prestam para observação e que pequenos refratores acromáticos não servem pra nada, a não ser para iniciantes bem iniciantes mesmo. Ou apenas para crianças pequenas. E que tais telescópios deveriam ser evitados dadas suas limitações. Fiquei a pensar o que seriam tais limitações. Seria em relação à qualidade óptica ou apenas por serem de pequeno porte? Se o questionamento é sobre a parte óptica então deveriam ser citadas as marcas. Mas então, surge uma outra questão: problemas de qualidade afetam apenas pequenos refratores? Grandes refletores são isentos de problemas de qualidade? Então, supõe-se aqui, que o “problema” seja essencialmente o tamanho.

    A primeira coisa que se deve fazer diante desse tipo de questionamento é analisar para que serve um telescópio. No que diz respeito à pesquisa percebe-se, atualmente, a existência de uma divisão de trabalhos em astronomia dita amadora (e que se apresenta cada vez mais como independente, não mais amadora). São, principalmente:

    (1) – os trabalhos de monitoração e registro (observação de cometas, estimativas de estrelas variáveis, medição de ângulo e posição de estrelas duplas, mapeamento da atividade solar através das manchas solares, cronometragem de ocultações, trânsitos dos satélites de Júpiter, observação planetária e estudos em selenografia);

    (2) – e os trabalhos de descoberta (novos asteroides e cometas, supernovas e crateras fantasmas na Lua, ainda não catalogadas);

    Ambos os trabalhos se valendo, por vezes, da astrofotografia para complementar as informações.

    Há quem produza os dois tipos de trabalho como o Vaz Tolentino Observatório Lunar que, em seus estudos em selenografia, fez descobertas de crateras fantasmas. Na realidade, um trabalho pode ser uma consequência natural do outro. Charles Messier fez o primeiro catálogo de objetos de céu profundo (1) para facilitar na identificação de novos cometas (2).

    Nos dias atuais os trabalhos do tipo (1) podem ser facilmente praticados em pequenos acromáticos de 60, 70, 80, 90 e 102mm assim como com binóculos também acromáticos de 7x, 10x, 12x ou 15x. Nos reviews de equipamentos da Sky & Telescope¹, por exemplo, quando um avaliador descreve sobre os pequenos acromáticos, não aparece a afirmativa que um acromático não serve pra nada a não ser para crianças menores de 10 anos de idade. Ainda não localizei na comunidade científica tal afirmação. Mesmo porque não se sabe qual o interesse de uma publicação, de cunho científico, não prioritariamente comercial, em discriminar tais equipamentos. A quem interessaria tal discriminação?

    Uma das maiores referências em monitoramento de estrelas variáveis, a AAVSO², não discrimina trabalhos em função de porte de equipamentos. O portal ALPO³, de observadores de Lua e planetas, também não discrimina tais equipamentos em sua página de admissão de informações e imagens. Na página de cometas da REA, o portal Costeira1, também não rejeita informações obtidas com pequenos acromáticos assim como da página de ocultações da REA. Nos fóruns de astronomia nos quais são publicadas observações planetárias também não aparecem tais restrições. E, finalmente, sabe-se, também, que observação de manchas solares são facilmente realizáveis em pequenas aberturas de 60 e 70mm.

    Todos esses trabalhos citados, possíveis de serem praticados em pequenos acromáticos, se referem aos do tipo (1). Bem, será então que esses tipos de trabalho não possuem o devido reconhecimento? Então AAVSO, ALPO e REA não seriam reconhecidas como praticantes de uma pesquisa astronômica relevante. Porque?

    Então a discriminação não seria referente aos pequenos acromáticos mas ao tipo de atividade possível de ser realizada com eles. Tem-se aqui, então, uma dúvida do que seja prática de ciência. E ainda, o que seja ciência. Ciência seria apenas descoberta? Observação e registro do mundo natural não seria ciência? Ainda não localizei, em textos científicos, um conceito de ciência que rejeite a observação e monitoramento do mundo natural como não sendo prática válida de ciência. Ao contrário, quando se tem pesquisa nas universidades, na forma de Mestrado e Doutorado, por exemplo, não existem privilégios dessa ou daquela prática. Muito do que se pesquisa na universidade se baseia, por vezes, exclusivamente em revisão bibliográfica. Mas poderíamos indagar, também, se as pessoas que discriminam tais práticas já fizeram alguma pesquisa na universidade. Ou teriam se tornado “cientistas” auto referentes e inquestionáveis, acima do bem e do mal.

    Em alguns fóruns de astronomia essa discriminação se tornou objeto de intermináveis e improdutivas discussões, jogando-se tempo fora, sem qualquer ganho. E fica claro a falta de um conceito minimamente razoável do que seja ciência.

    Uma outra afirmação que surge é que “muitos desistem por causa da decepção com pequenos acromáticos”. Mais uma vez, alguma pesquisa de opinião sobre prática em astronomia feita por alguém? Alguma publicação científica? Ou mero achismo? A pessoa que desistiu buscava a ciência da astronomia? Ou seria apenas um curioso eventual? Ou desistiu quando equivocadamente informado que deveria adquirir pesados, grandes e caros equipamentos se quisesse “avançar” na ciência? Avançar significa, exclusivamente, ver imagens mais brilhantes? Ver mais estrelas? Avançar é apenas quantitativo?

    Na sociedade atual aprendemos a valorizar a quantidade como sinônimo de qualidade. Então, se você tem apenas um carro, deveria ter dois. Seria uma opção a mais. É a lógica do consumo. E porque não três? Ou quatro? Um para ir ao trabalho, um para viajar, um para fazer compras e outro, conversível, para sair aos domingos. A sua garagem é pequena? Troque de casa, para uma que tenha uma garagem que caiba mais carros. Mas se você tivesse cinquenta carros seria melhor. Um de cada cor e marca, incluindo carros antigos. Seria um sucesso. Você só tem três ternos? Puxa, arrume mais sete para completar dez, de cores e modelos variados. Se torne muçulmano e tenha até quatro mulheres. Essa é a sociedade do consumo, do capital e da quantidade. Isso nada tem a ver com ciência.

    Durante a corrida espacial entre EUA e a extinta URSS, nas décadas de 1960 e 1970, a pesquisa em ciência virou fator de comparação entre as super potências: o maior e o mais caro era o melhor. Quantas missões ao espaço? Quantas missões à Lua? Quantas sondas em órbita? Mero quantitativo. Isso não é ciência, é política. Ter consciência política nos permite separar a ética por trás da ciência que delimita os caminhos da prática na política. A quantidade, em ciência, só tem valor na política. A pesquisa científica, pela sua natureza intrínseca, é prioritariamente qualitativa.

    E ainda, a associação entre pequenos acromáticos com baixo desempenho na prática da astronomia é muito reforçada por alguns fabricantes de equipamentos. Eles tem interesse em vender os grandes e pesados equipamentos que são muito mais caros e agregam muito mais acessórios. Falta imparcialidade. Diante disso, o interesse comercial de alguns fabricantes não deveria ter ressonância no meio científico. Mas será que as pessoas que reproduzem tal discurso, de consumo, propagado pelos fabricantes, fazem parte da comunidade científica?

    Somos responsáveis pelo que publicamos. E existe o risco de tais publicações se tornarem referência para outras publicações e virar um círculo vicioso. Afirmativas anticientíficas e discriminatórias apenas dividem e enfraquecem a prática da astronomia, reforçando a resistência que os astrônomos ditos profissionais têm da astronomia dita amadora. Estar refém de discursos sem embasamento científico só desgasta a ciência, prejudicando sua divulgação e a formação de novos talentos na astronomia.

    _______________
    1 Disponível em: www.skyandtelescope.com
    ² Disponível em: www.aavso.org
    Disponível em: http://costeira1.rg10.net/

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    André MTC
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    Re: Astronomia: observação e estudo dos astros

    Mensagem  André MTC em Dom Jan 01, 2017 8:02 pm

    Infelizmente e dificilmente somos orientados a adquirirmos um equipamento baseados em objetivos mais específicos que o da astronomia observacional simples (hobby) ou no máximo de uma futura prática (incursão) na astrofotografia. Raras vezes somos alertados sobre a possibilidade da produção de trabalhos de natureza científica (simples coleta de dados) seja através das mesmas observações realizadas como "hobby" ou das próprias fotos que tiramos tantas vezes para postarmos em fóruns e galerias mundo afora.
    Não que isso esteja errado, mas perdemos a chance de transformarmos todo esse trabalho em conhecimento (colhendo/reunindo esses dados) seja por falta de compreensão de como fazê-lo ou pior: de comodismo mesmo! Lembro que meu primeiro contato com um site de astronomia foi o do observatório Vaz Tolentino, fiquei maravilhado com os refratores e suas aplicações no estudo do relevo lunar - entre outras coisas.
    Com o decorrer do tempo acabamos tendo contato com outras fontes de informação (fóruns/face) onde os objetivos não estão tão focados na satisfação da produção científica, mas no prazer que a suposta qualidade do equipamento que possuímos pode nos proporcionar. Tem um refletor? Qual a abertura? Tome cuidado, quanto maior melhor....Tem um refrator? É APO? E as oculares, quais são as especificações delas?
    O pior é que acabamos nos deixando levar por esses pensamentos e comportamentos e não raro estamos reproduzindo, agindo da mesma forma.
    Agradeço sua postagem que revigora os princípios e objetivos iniciais de meu contato com a astronomia....

      Data/hora atual: Sab Dez 16, 2017 4:59 am